João Marcos Adede y Castro

JOÃO MARCOS ADEDE Y CASTRO é graduado em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria, sendo Mestre em Integração Latino Americana, pela mesma Universidade.

 

É doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Universidade del Museo Social Argentino, e doutorando em Direito Civil pela Universidade de Buenos Aires, ambas de Buenos Aires.  

 

Foi Promotor de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul por quase 30  anos, tendo exercido as atribuições de Promotor de Justiça Especializada de Defesa Comunitária, com atuação preponderante nas áreas de defesa do meio ambiente, interesses sociais e coletivos e improbidade administrativa. É Professor Universitário.

 

 É membro e  foi Presidente da Academia Santa-Mariense de Letras, ocupando a cadeira número 16, cujo patrono é o escritor e jurista  Darcy Azambuja. É advogado em Santa Maria, RS.

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Meu zeloso guardador

04.12.2017

CAPÍTULO V

 

Na sala de audiência, as luzes foram diminuídas, para permitir o descanso do réu e para reduzir a visão que a imprensa e as pessoas que se acumulavam, agora em menor número, podiam ter do palco dos acontecimentos, apesar das cortinas fechadas.

Acompanhava o réu apenas um servidor, muito assustado porque tivera a impressão, não confirmada porque não tivera coragem de pedir licença para fazer uma revista corporal, de que havia uma faca em sua meia, por debaixo da calça.

Mas, o centro de toda a confusão estava absolutamente tranquilo. Não dizia nada, não fazia nenhuma exigência. Sentado na cadeira que lhe fora destinada no início da audiência, não se levantara nem para ir ao banheiro. O servidor estava curioso para saber o que aconteceria quando ele pedisse isto.

Nada de comida.

Nada de bebida.

Olhos baixos. Silêncio opressivo. Para forçar a saída do réu o juiz determinara o desligamento do condicionador de ar. Apesar de já ser quase meia noite, estava quente. O réu parecia não se importar com o calor.

O funcionário pensou que seria uma boa ideia abrir a porta, mas a presença da imprensa no corredor o impedia. Com muito tato o juiz conseguira que os repórteres saíssem da sala, mas sob a promessa solene que  poderiam ficar no corredor e quando houvesse qualquer novidade, serem avisados. Por ora, a única notícia é que não havia notícia, ao menos recente. Tudo estava como antes, ou seja, um impasse.

O réu fecha os olhos. Para o servidor pareceu que dormia, mas ele começou a falar em voz muito baixa, apenas movendo os lábios.

...do Senhor...guardador, que a mim...

Santo Anjo..............amém.

Sinal da cruz na fronte. Estava rezando!

O servidor, apesar da seriedade da situação, não deixar de pensar que o réu, depois desta confusão, ia precisar rezar muito para escapar da cadeia. Afinal, o juiz o mandara sair e ele desobedeceu à ordem. Que belo processo crime, quem seria o louco que aceitaria defendê-lo?           

Só um advogado mais louco do que ele.

Santo Anjo do Senhor, meu zelo guardador.

Eu fui um zeloso guardador. Por que acham que eu fui negligente?

A cabeça balançava, como se seu dono desejasse espantar maus pensamentos. Visivelmente sofria. Olhos vermelhos, mas nenhuma lágrima, por ora.

O homem que sofria abaixou-se, como se fora arrumar as meias e de lá tirou um objeto parecido com uma faca. O servidor gelou. O réu colocou o objeto sobre as pernas, mas meio escondido pelo casado. A luz de um carro que passava iluminou rapidamente a sala. Era uma faca.

Nós três podíamos ter sido mais felizes. Sei que errei, mas não por não amar vocês.

O servidor não sabia como agir. Não podia sair da sala para avisar o escrivão ou o juiz. E, apesar da faca, o homem estava calmo.

Antes que pudesse decidir o que fazer, a porta abriu. O escrivão e a ex-mulher do réu entraram.

Meia noite.

Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se  a ti me confiou...

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© 2017 por João Marcos Adede y Castro

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